Naquela tarde de Natal, Lavínia resolveu ir visitar um ASILO, onde idosos, esquecidos pela família, viviam, ou seja, esperavam o tempo passar. São tantas pessoas que sofrem o abandono dos familiares!!!
São colocados em asilos , como se não valessem nada, como se a vida, vivida na riqueza ou na pobreza, não tivesse significado algum.
Lavínia foi caminhando pelos corredores frios do prédio e logo chegou ao pátio, onde dezenas de velhinhos a olhavam, procurando em seu olhar, um pouco de ternura e de amor. Ela ia acenando a um e outro, quando seus olhos fixaram numa senhora, que com olhar tristonho, observava a vida, que passava no movimento das nuvens, no bater das asas dos pássaros, no
vento que derrubava folhas de árvores em sua cabeça grisalha.
Lavínia aproximou-se dela. Tinha um porte elegante, deixando transparecer em suas roupas rotas, um "quê" de elegância, de altivez...
- Como é seu nome, senhora?
- Meu nome é Jacyra, minha jovem. Por que pergunta?
- Porque sua figura me chamou a atenção. Tem algo de belo que ficou em seu rosto, embora envelhecido pelo tempo...
- E pela tristeza, minha filha.
- Tristeza ? Por que ?
- Eu fui uma jovem feliz, muito cortejada. Moça de sociedade, como diziam...
- E como veio parar aqui, neste lugar tão diferente de seus costumes?
- Tive uma vida de luta e com sacrifício conseguí independência financeira e social. Casei... fui feliz. Perdi meu pai... minha mãe...Os irmãos nunca ligaram para mim...
- E a senhora, nunca teve filhos?
- Sim. Tive um. Razão de minha vida. Viveu conosco até encontrar a mulher amada e casar-se. Foi uma festa linda e luxuosa. Meu marido e eu fizemos tudo para que ele fosse feliz. E a vida continuou...
- E, onde está seu marido ?-
- Era meu companheiro de todas as horas...Coitado...Partiu, sentindo o abandono do filho.
- Mas, como seu filho os abandonou?
- Na verdade, ele se afastou de nós no dia em que começou a namorar a tal moça que escolheu para casar. Ficava mais com ela do que conosco.
Como dizia Ghiaroni: "...e de repente, uma mulher bonita, surgindo o rouba e a velha mãe aflita, ainda se volta para abençoá-los..."
- E ele é feliz?
Não sabe o valor de sua visita para uma velha abandonada...
- Que isso minha amiga!!! Virei sempre visitá-la. Prometo. Vou trazer fotos de papai, mamãe e meu irmão.
- Como é o nome de seu pai ?
- Meu pai é Alberto, minha mãe Eugênia e meu irmão Ruddi. São nomes de família, creio.
- Lindos nomes, minha querida. Um desses, era o nome do meu marido.
- Por que chora, senhora? Os nomes trouxeram recordações boas ou más?
- Claro que boas. Saber dos nomes de seus familiares deixa a gente mais próxima uma da outra. Posso falar neles como se fossem meus conhecidos: seus pais, seu irmão, você.
- Ainda bem. Não queria que minha visita a magoasse!!!
- Você nem imagina como estou feliz, Lavínia. Bonito nome, sabia?
- Bem, agora vou embora. Tenho que fazer mil coisas. Confesso que adorei conhecer a senhora e voltarei sempre. Sinto que nossos corações batem igualmente juntos, de felicidade.
Lavínia beijou a mulher e saiu, com a certeza de ter feito uma boa ação.
E Jacyra, deixando as lágrimas rolarem pelo seu rosto, balbuciou baixinho:
- Vai com Deus, minha neta...
JANDYRA ADAMI
