Sonetos de Desassossego - I
Nathan de Castro Jr.
 
Reescrevendo histórias de desassossego,
machuco a folha branca, a ponta da caneta,
apago a luz da estrela que seduz meu ego
e acendo o olhar mirante de aluar poeta.
 
Nesse meu auto-exílio, a solidão carrego,
e escuto a dor da música do meu planeta,
bailando na cabeça de um morteiro cego,
que não sabe a miséria e a cama na sarjeta.
 
O que fazer do verso que não sabe a fome
nos olhos da criança fraca e desnutrida?
e o que fazer da fome, aquela que consome
 
a paz, e faz da morte, o prato de comida?
Somente na poesia encontro o codinome
para enfrentar a guerra e as lutas desta vida.
 
 
II
 
 
Para enfrentar as guerras e as lutas desta vida,
carrego a solidão dos becos da cidade,
escuto a luz néon e a flor da liberdade
que dorme sob o teto de concreto de luas.
 
A noite ensina a dor no olhar sem claridade
do rosto da criança amiga da avenida
e que sabe os sinais das balas dessas ruas,
mas não sabe a esperança e o prato de comida.
 
O lençol de jornais descreve a cor das urnas
e dita as explosões do dia que amanhece,
estampado em manchete, as pichações soturnas.
 
Desassossego em letras garrafais... A prece,
clama pelos luares e as luzes noturnas,
para escrever o verso que a canção merece.
 
 
III
 
 
Para escrever o verso que a canção merece:
ilude a fome e aceita a lua como abrigo.
No peito analfabeto que alimenta o filho,
castiga a liberdade que a vida arrefece.
 
O sonho sobe o morro em cima do perigo,
enquanto a lama desce soterrando a pedra
que brincava de pedra sem saber a letra,
e dormia no chão do pesadelo. O trilho,
 
segue o triste roteiro da voz de enxurradas
gravadas pelas lentes frias da audiência,
que chora nos horários nobres da piedade.
 
O pranto abraça as chuvas pelas madrugadas,
fazendo escavações nos braços do silêncio,
pra soterrar a dor aos olhos da cidade.
 
 
IV
 
 
Pra soterrar a dor aos olhos da cidade,
do campo vem a luta de um povo sem terra.
Gente que sabe a safra, o vento das voragens
e traz a experiência da fome e miséria.
 
Lavouras de favela e plantações de zinco,
roupas dependuradas nos varais da imagem,
para assistir o clássico som de enxurradas
descendo pela encosta da velha paisagem.
 
Na tela, o futebol das tardes de domingo,
no céu, a nuvem negra que o sertão pedia
nos tempos de sonhar com a cidade grande...
 
No peito, uma saudade de contar os pingos
dos temporais que o agreste em chamas, recebia,
para atiçar a sede de seguir adiante.
 
 
V
 
 
Para atiçar a sede de seguir adiante,
desfila o desemprego pelas avenidas,
e nos classificados encontra o horizonte
tingido por manchetes de balas perdidas.
 
Que falta faz a pena e a luz de uma caneta!
Viver na escuridão dos andaimes da lida,
sem poder ver a fila do pão sobre a mesa
ou a panela cheia de esperança e vida
 
Um ponto de partida, surge no deserto
que se instala no peito desassossegado
e explode no primeiro assalto à mão armada.
 
Prova da violência e a mão arromba a porta
que ensina a ferramenta de calibre certo,
de encontro aos paredões da nova caminhada.
 
 
VI
 
 
De encontro aos paredões da nova caminhada,
faz pose para a foto, assina o documento,
dá entrevista e mostra a cara mascarada
de quem esconde a dor e não sabe o momento.
 
Enfim, matriculado, aprende a fila, e o vento
tem cheiro de saudade do mato e da estrada
e um sonho bate o peito e eleva o pensamento
de encontro à liberdade sempre procurada.
 
Amotinado, prova a morte, a cor da fama,
e novamente as câmeras filmando a lama,
para o horário nobre de um planeta cego...
 
Que mesmo vendo o sangue, dorme de pijama,
para esconder do frio e disfarçar o medo
de conviver com ventos de desassossego.



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