RETRATO DE UM POETA QUANDO PEDRA
ou
ENQUANTO O AMOR NÃO VINHA
MARIA ELIZABETH CANDIO
17.01.2001
I
Sou arqueiro que hesita
ante a visão do alvo
como hesita a gazela ante o faro da onça,
como hesitam navios ante os faróis.
salvo se os anjos antes
afagarem a flecha
untando sol onde outrora sal,
salvo se os anjos antes.
Meu coração penedo
emudece os pêndulos do carrilhão,
desrima as notas das canções algozes.
Descoração voraz de viajantes vultos,
ouvindo versos, não ouvia vozes.
II
Sou aranha que oscila
ante a visão da presa.
como oscila o anzol ante a fome do peixe,
como oscilam vadios ante os heróis.
Salvo se os anjos antes
afrouxarem a teia
cosendo seda onde outrora sede,
salvo se os anjos antes.
Meu coração rochedo
desconhece as bátegas do dilúvio,
desruma os ventos das soturnas plagas.
Decoração viril de vigilantes veias,
havendo vigas, não havia vagas.