OBITUÁRIO

Conto de Romeu Prisco



          Estava em casa lendo o jornal e, como de costume, passava os olhos pela coluna de óbitos. Era um hábito que adquirira há alguns anos, depois de ter sido surpreendido com a notícia de falecimento de dois estimados amigos, um da infância, outro da mocidade, deles não me despedindo e nem tampouco comparecendo às respectivas cerimônias religiosas, por falta de prévio conhecimento.

          Na medida em que prosseguia a leitura, ia me dando conta de que tinham falecido, nesta Capital, aos tantos anos de idade, fulano, sicrano e beltrano. Até então nenhum parente distante, amigo ou conhecido. De repente, qual não foi o meu espanto. Lá estava um nome mais que íntimo para mim. Li, reli e custei a acreditar. Era o meu, com todas as letras e sem erros. Apesar de incomum, seria um homônimo?

          Desesperado, saí correndo pela casa, chamando minha mulher e meus filhos. Ninguém respondeu. Meu Deus, o que estaria acontecendo, se ainda há pouco eles se encontravam aqui ? Recorri ao telefone, que, estranhamente, se manteve mudo, sem dar sinal de linha. Voltei ao jornal para conferir o local e horário do enterro. Cemitério do Bonfim, onde o corpo seria velado, com sepultamento marcado para 9 horas do dia seguinte.

           A distância entre a minha casa e aquela necrópole era de aproximadamente dois quilômetros. Meu carro não estava na garagem. Na rua, os táxis e os coletivos passavam lotados. Resolvi ir a pé, o mais depressa que pude. Nem sei se no trajeto me deparei com pessoas conhecidas e se as cumprimentei, ou não. Admiro-me, isto sim, como consegui atravessar as vias públicas sem ser atropelado, tal era a minha ansiedade.

          Cheguei esbaforido ao cemitério, onde, infelizmente, constatei a veracidade da notícia. Numa das dependências mortuárias, cercado por familiares e amigos, vi-me no caixão, por sinal, de boa qualidade. Embora lívido e com algodão a me tampar as narinas, trazia no rosto um discreto sorriso, que poderia ser interpretado como 'missão cumprida', o que desaconselhava cenas de choro. Rodeado de flores, mãos cruzadas sobre o abdome, segurando um pequeno crucifixo, trajava o terno escuro preferido por mim, exibindo, na lapela, um minúsculo distintivo da entidade profissional, à qual pertenci durante boa parte da minha existência.

           Ao lado da cabeceira do caixão, detive-me num longo período de contemplação e meditação. Entre um estágio e outro, levantei um balanço resumido da minha vida. Consideradas as ações positivas e negativas, entre estas nenhuma de maior gravidade, o saldo se apresentou favorável. Embora sempre com grandes dificuldades, tinha passado pelas fases mais críticas da infância à maturidade, sem perdas morais significativas.

          Afinal, estava deixando uma família unida e amparada, composta de mulher e três filhos, sendo dois rapazes e uma moça, todos com curso superior completo. Fechadas as contas, benzi-me e formulei a primeira despedida, arriscando, inclusive, uma saudação: adeus e parabéns pelas realizações, companheiro e cúmplice querido de todas as horas ! Em seguida, já conformado, apesar de sentimentalmente abalado, me fixei no desfile que se processou pelo resto do dia.
A sala se apresentava abafada e o cheiro das velas insuportável. Duas coroas e alguns arranjos florais paramentavam o ambiente. Uma das coroas tinha sido enviada por familiares e a outra pela Sociedade Amigos do Bairro, onde fui conselheiro em várias gestões. Olhando atento para todos os lados, buscava identificar os presentes, entre os quais se encontravam muitos que eu esperava que comparecessem e outros poucos não. Notei certas ausências, talvez justificadas pelo desconhecimento do fato, ou por algum impedimento de última hora.

          Procurei desviar a minha atenção dos comentários, principalmente de parentes e amigos, para não me emocionar mais do que já estava. Dos vizinhos também mantive distância, para evitar possível decepção, se viesse a saber que não teria gozado de tanta estima, quanto eles me fizeram crer em vida. O sol já ia se pondo. Entre o final da tarde e parte da noite, ocorreu uma troca de vigília. Enquanto alguns voltavam para suas residências, outros vieram me ver, saídos do serviço. Cerca das 23 horas, a sala se esvaziou. Sem murmúrios, praticamente só se ouvia o ruído do aparelho purificador de ar.

          De madrugada fui velado somente por minha mulher, que se recusara a ir descansar na casa da mãe, por meus filhos e, pasmem, por mim. Quem diria ! Aqueles, ao que tudo indicava, seriam os derradeiros instantes que passaríamos juntos. Estava na companhia de quem tinha me proporcionado os melhores momentos da minha vida.

          Tentei dizer-lhes o quanto eu os amava, mas não consegui me fazer ouvir, embora a atmosfera estivesse impregnada de vibrações. Ademais, não era justo que eu interrompesse o cochilo, incontrolável, ora de um, ora de outro, ora de todos, impedindo-os de se recuperarem do desgaste físico e emocional, pelo qual estavam passando.

          Aproveitei para satisfazer uma curiosidade. Aproximei-me do primogênito, que trazia no bolso da camisa a certidão de óbito, para nela ler a causa mortis: insuficiência respiratória e parada cardíaca. Diagnóstico plenamente compatível com o vício do tabagismo, que me dominara anos a fio. Até que fora, aparentemente, um passamento sem grandes traumas.

          Visitei rapidamente os demais velórios, para manifestar a minha solidariedade aos outros mortos, tendo-os como se fossem colegas de infortúnio. Efetuei, também, um reconhecimento superficial do cemitério, o que me lembrou do tempo em que servira ao exército. Tive a impressão de ouvir algumas vozes, mas contive o ímpeto de procurá-las. Qualquer comunicação com o além me afigurava, naquela oportunidade, precipitada.

          Voltei para o meu velório, sentei-me ao lado da família, fechei os olhos e adormeci, o que, aliás, não foi de se estranhar. Afinal, estava exausto e sem dormir havia quase vinte horas. Em sonho, vieram-me à mente imagens da minha vida doméstica, a partir do meu bem sucedido casamento com aquela menina-moça, mais jovem do que eu.

          A alegria pelo nascimento dos filhos, os cuidados e as preocupações com a sua criação e educação, até a obtenção do diploma universitário. As divertidas viagens de férias, nas quais sempre aconteciam episódios pitorescos, que motivavam boas gargalhadas, na volta para casa.

          Numa das férias, acabamos dormindo, apertados, algumas noites, felizes como os escoteiros, no escritório administrativo de um pequeno hotel campestre. Tínhamos decidido viajar de improviso, sem fazer a devida reserva. A hospedaria se encontrava lotada. Todavia, graças à boa vontade do seu proprietário, permanecemos naquela situação, pagando apenas as refeições, até que se desse a desocupação de um chalé.

          Sem consumar o sonho e o próprio repouso, fui despertado pelas badaladas do sino da capela do cemitério. O dia amanheceu bonito e o número de pessoas aumentava, gradualmente, assim que se aproximava a hora de fechar o caixão. Um padre veio encomendar a minh'alma. Dadas as opções religiosas que mantive em vida, acho não teria sido exagero uma breve cerimônia ecumênica. Acompanhei as preces e até me senti preparado para o grande momento, depois que o sacerdote espargiu a água benta.

          Fechada a urna funerária, meu filho mais jovem poderia ter lembrado de levar a bandeira do clube de futebol da nossa predileção, para colocá-la sobre o ataúde. Se faltou esta, por puro e compreensível esquecimento, outras demonstrações de carinho serviram de alívio para a minha tristeza. Numa carreta, meu corpo era transportado pela alameda central do cemitério, até a rua do jazigo, onde não iria me sentir um estranho. Ali se encontravam em repouso eterno conhecidos, parentes e até um irmão, que, embora mais idoso do que eu, falecera prematuramente.

          Quando o caixão baixou sepultura e antes que a minha última morada terrestre fosse definitivamente lacrada, não resisti ao impulso de patrocinar-me uma singela homenagem fúnebre. Interpretei, baixinho, a minha canção favorita, As time goes by, do épico filme cinematográfico Casablanca.

          Branca também era a vestimenta que eu trajava, ao emergir daquela transição. Com o jornal nas mãos, me encontrava sentado no banco de um enorme e florido jardim, até então nunca visto por mim. Desta feita, lia os anúncios de natalidade. Novamente tive uma grande surpresa, diferente, contudo, da anterior, porque extremamente agradável. O periódico noticiava o nascimento de uma criança, cujo nome recebido era exatamente igual ao meu.


FIM

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