Era madrugada chuvosa. 2 horas e 45 minutos. As panelas e
latas aparavam as gotas que escapavam entre velhas telhas sustentadas por uma
tapera de tábuas, a água fervia num fogão de lenha que esfumaçava todo o
ambiente. Dona Vina "a manca" era a parteira que aparararia o primeiro filho
daquele casal ainda criança.
lençóis trapilhos se fizeram úmidos nas mãos da
parteira que auxiliada pelo jovem e quase pai com uma seringa na mão rezava
uma estranha prece. As estroncas da parede de tábuas manchadas pela chuva que
caia torrencialmente eram o armário que sustentava uma lamparina a
querosene cuja chama dançava ao sabor do vento que invadia o
quarto pelas frestas nas paredes.
Naquele instante o jovem
Sr. Luiz Barbosa, sapateiro por profissão, emocionado com a primeira visão
de um ser vindo à luz, ora copiosamente segurando as mãos da menina D. Luzia
Zanella Barbosa. Dona Vina "a manca" entre palavras de uma reza confusa
entremeia ao jovem casal "será lumiado pela luiz divina" e o choro do susto da
luz que invadia a tapera foi grito de felicidade por ganhar a graça da
vida. Dona Josefina Barbosa avó do primeiro neto, esotérica, analfabeta de
letras, humilde, mas, doutora na fé, sorri e me toma nos braços, levanta-me ao
alto e naquele instante calo meu choro e recebo as bênçãos.
Amanhece.
Pessoas chegam dos arredores sob chuva já mansa; nas estroncas de
madeira encardida de fumaça, havia camomila, arruda, óleo de copaíba e a
lamparina ainda acesa. Era 5 de janeiro de 1.959.
29/03/2.003
Luiz Antonio Barbosa
GIGIO

Drº Jivago