Cenas reais da vida de uma Top Model dos anos 60...
                          
 
                        GAZELA  ASSUSTADA

 

A viagem que fazíamos de Lambari à Santa Rita(ou vice versa),de trem, tinha uma   parada enorme em Soledade de Minas.. Eu aproveitava  para visitar meu colega de Coletoria, filho do Prefeito, naquela época. Para passar o tempo, fazíamos o “footing” na estação, com duas plataformas, onde os trens iam e vinham, de todos os lados.

Naquele dia inesquecível, fizemos tudo como de costume e eu, trajando um conjunto “duas peças”, que modelava bem o corpo, um rosa diferente, muito bonito, sapato de salto, meias. Como diziam, “ desfilei a minha elegância o tempo todo”.

Depois de muita espera, entramos no trem. Mãe ficou sentada e eu fui ao outro vagão, com certeza, ver os passageiros, andar simplesmente.

Assim que acabei de entrar naquele carro, ele se desprendeu do resto do trem e foi fazendo um percurso oposto ao de Lambari, em cujo último vagão estava minha mãe, as malas, a frasqueira, o dinheiro. Quando eu ouvi um apito do trem que ficara perto da estação, pressenti que estava de saída o que ia para Lambari e então perguntei a um senhor, para onde iria aquele vagão em que estávamos. Ele respondeu que era um  vagão com romeiros, que iria engatar num outro trem, assim que a linha estivesse desocupada com a partida do trem para Lambari... Apavorada, desci a escadinha com sacrifício, já que a saia era bem justa e batia na canela. Comecei a correr entre os trilhos, com imensa dificuldade, pois o salto e a saia não me davam condições. Tirei os sapatos, carregando-os com a mão esquerda e com a direita, levantava um pouco a saia. E fui, em desabalada corrida, rumo ao trem que ia para Lambari e onde minha mãe, aflita, me esperava. Ainda bem que naquela época eu não tinha problemas de coração... Corri...corri... e o trem começou a movimentar-se.

Muita gente na última porta, torcendo para que eu chegasse! Parecia um filme cômico...

A muito custo, consegui chegar e sentei no primeiro degrau da escada. Com a alma pela boca, cansada e assustada...  O trem foi aumentando o ritmo  e as pessoas me ajudando a subir, pois eu não tinha mais forças.  Quando consegui sentar no meu banco, olhei os pés que sangravam. Vim correndo em cima daquele carvão pontiagudo!. Não sabia se ria ou se chorava. A meia, que era bem grossa,(parece que se chamava Nondesfil) protegeu um pouco os pés, mas mesmo assim ficaram machucados.

Passado o susto, fiquei pensando como aquele pessoal que estava na estação deve ter rido de mim, porque momentos antes eu desfilava pela plataforma, como uma gazela, depois, corria, desvairada, entre os trilhos! O pior é que ninguém sabia o que eu queria e para onde eu ia, naquela coisa assustadora, que deve ter sido a minha tragédia pessoal.

Sem dúvida, foi muito engraçado para eles que, chegando a suas casas, devem ter contado o ocorrido aos familiares, sem contudo, saber o que estava se passando comigo.

Devem ter pensado que eu era uma doida varrida.!

Eu fiz a viagem descalça, fui para casa e, no dia seguinte, nem pude ir trabalhar, pois os pés machucados, não permitiram.

Afinal... o que é que eu tinha que largar minha mãe sentada e ir para o outro vagão fazer hora e ficar olhando para os outros??!!

 

Jandyra Adami- Do livro Passarela da Vida- 1.992




Emig