DIÁLOGO COM O TEMPO
gina - 1986
Ó tempo!
Que mistério é esse o teu,
Quando marchas sem descanso,
Ignorando aflições
E desprezando lamentos?
Às vezes vais tão depressa
Que o presente logo, logo,
Se transforma em passado
Sem que possamos contê-lo...
Outras vezes tu és lento,
Te arrastas e te demoras,
Num passo quase indolente,
Em que o futuro não chega...
Nem sempre posso sentir-te
E ignoro teus passos...
Mas quando olho no espelho,
Tu vens logo e te apresentas...
Meus cabelos que eram fartos,
Tu os levaste contigo;
E os poucos que sobraram
Tu branqueaste ligeiro!
O viço de minha pele
Foi-se embora para sempre
E tu deixaste só rugas
Marcando tua passagem...
Para onde tu levaste
Todo o brilho de meus olhos?
Minhas carnes que eram firmes,
Tu massacraste de vez...
Chegaste te intrometendo
Até em meus pensamentos...
Fico perdida e misturo
O passado com o presente!
Óh tempo!
O que fizeste comigo?
Tornaste-me um estranho
E roubaste-me a beleza,
Transformando-me num velho!
Diga-me logo, ó tempo,
O que pretendes comigo?
Para onde vais levar-me
Em tua corrida insana?
Óh amigo!
Tenta aquietar tua alma
E não te zangues comigo,
Pois cumpro minha missão
Que é andar sem descanso...
O meu ritmo é um só
E se me vês vagaroso,
É que algo bem doído
Te ilude que parei.
Eu caminho num compasso,
Para frente e sem parar...
Tu deves ficar atento
Pra não me desperdiçar!
Eu jamais roubei-te nada,
Sem em troca dar-te algo...
Teus cabelos que eram fartos,
Dei a teus filhos e netos...
Dos teus olhos foi-se o brilho,
Mas na névoa que os encobre
Há imagens de uma vida
Que nunca se apagarão...
Se olhares bem as rugas
Tu verás que dentro delas
Eu deixei experiências,
Lembranças, sabedoria...
Óh tempo!
Teu discurso não me anima,
Pois perdi a juventude,
Bem maior, que tu levaste
E não me devolverás!...
Amigo!
Escuta e presta atenção,
Pois vou contar-te um segredo
Que é uma falha minha
Mas muito te ajudará...
Na corrida incessante,
Que é minha sina de algoz,
Vou envelhecendo corpos,
Mas deixo as almas em paz...
Procura olhar para dentro
Que verás ainda intocável
Tua alma de criança,
Brilhante, alegre, sem rugas...
Desperta-a com carinho...
Dá a mão a esta criança
E jamais a abandones,
Até o fim do caminho!...
Enya - After Ventus
Imagem: internet
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