A bicicleta
Carlos Eduardo Nunes
12.10.2003


Peguei a bicicleta e segui em frente sem olhar para trás. Pedalava lentamente observando as coisas ao redor e cumprimentando uma ou outra pessoa conhecida. Lembrei de um instante importante de minha vida onde percebi que estava realmente vivo. E a cada pensamento, pedalava com mais força.

Muita coisa se passou, apesar de minha pouca idade. Não sei dizer ao certo quantas coisas vi e senti, mas posso garantir que não foram poucas. Lembrei daquele amor que terminou de forma inesperada e que deixou muitas saudades. Lembrei de sorrisos, de amigos, do frio que senti quando a chuva fina caía sobre meu corpo certa noite em que cheguei em casa cansado.

Agora pedalava mais rápido. Passei por um cruzamento sem nem mesmo parar ou olhar para os lados. Pela primeira vez em minha vida, agi por um impulso estranho e incontrolável. Pela primeira vez, não media meus atos e suas conseqüências.

E pedalava. E pedalava cada vez mais, e cada vez mais rápido.

Minha bicicleta era velha, tal qual as pessoas em minha rua. E neste momento, nada mais importava, pois eu queria correr os riscos, ultrapassar limites interiores, limites estes, impostos por eu mesmo. Poderia chamar estes limites de medo, ou qualquer coisa assim, mas apenas desta vez, queria fazer o que nunca fiz.<

E, naquele momento, minha vida estava nos pés que pedalavam como nunca, como se precisassem chegar rápido em algum lugar, lembrando a correria das pessoas nos grandes centros seguindo atrasadas para seus trabalhos. E tudo o que eu queria, era sentir o vento contra o rosto, cada vez soprando mais forte, e meu corpo e a bicicleta cortando o ar numa velocidade incrível.

E passei por mais um cruzamento, e outro, e outro. Por sorte, nenhum carro me atingiu.

Voltei à minha rua. Vi as mesmas pessoas fazendo as mesmas coisas de sempre. Pensei na loucura que acabara de cometer. Mas estranhamente, me sentia feliz; me sentia vivo. Sei que fui inconseqüente, mas talvez tenha sido a primeira vez que deixo as coisas fugirem do controle. Sei que ao entrar em casa, volto ao conforto do lar e tenho pessoas que me esperam. Guardarei minha bicicleta com muito mais cuidado hoje. Talvez nem mesmo a empreste para mais ninguém.

Não sei que velocidade atingi, mas meu coração está a mil por hora.



Midi: Jonh Bee
Imagem: Internet






Jonh Bee