MEU PRIMEIRO VELÓRIO

Adolpho J. Machado
17/08/2003

Estranho esse título ! Como é que alguém pode ter mais de um? Confusão por um estado cataléptico ?...

Explico: Estou me referindo ao primeiro velório onde compareci como visita, aos seis anos de idade.

Morávamos numa chácara do meu avô paterno. Éramos: Eu, um casal de irmãos mais velhos, meus pais, meus avôs e uma tia viuva com seus sete filhos que, apesar de não serem os personagens, cito-os todos à guisa de registro.

Recebemos a visita de cortesia de um senhor que havia chegado da Itália e adquirido um sítio nos arredores. José Ganduzzi era o seu nome. Nunca mais o esqueci, não sei porque. Ou, será que sei?

Meu avô ficou de retribuir-lhe a visita com outra de boas vindas, proximamente, que foi substituida por uma de despedida ! O vizinho faleceu repentinamente, alguns dias depois.

No salão do velório, se é que posso denominá-lo assim pois, hoje, passados quase setenta anos, trazemos na memória espaços gigantescos onde, um "grande" salão por exemplo, verificamos, ao voltarmos lá, tratar-se de um pequeno espaço que chega a uns parcos doze metros quadrados !

Voltando ao "salão" do velório: Fiquei sentado ao lado de minha mãe, numa cadeira próxima da "enorme" essa. Creio que essas - sem trocadilho -, eram realmente mais altas que as atuais, porém, como víamos as coisas partindo do porte de uma criança...

Por curiosidade ou, sei lá se pelo próprio medo, a cada visita que chegava e se aproximava do esquife para afastar o véu e ver a face do defunto ,- palavrinha horrível , que nos fazia tremer, só de ouvir, - eu ficava de pé e na ponta deles, para tentar ver algo também. Ainda bem que, apesar do esforço, quase nada conseguia !

A conhecida intuição de mãe, agia rapidamente e ela, por trás e disfarçadamente, me puxava pela camisa, me obrigando a sentar.

Terminado o tempo julgado satisfatório ao cumprimento da obrigação, voltamos para casa.

Eu dormia ainda e, antes daquela noite muito bem, num berço que continuava a me servir de cama, ao lado dos meus pais ; Não me lembro de quando e, se voltei para ele !

Acordado, no escuro e na solidão !... De minuto a minuto eu raspava a garganta para ouvir algum som e me manter acordado ! O medo de dormir ali, sozinho, era o problema maior !

A voz da minha mãe era muito bem vinda e até parecia, naqueles instantes, com um coro de anjos, quando, por várias vezes, perguntou: Ainda estás acordado, filho?

-Sim; Estou !

Porque ? Está com medo?

-NNNNNÃÃÃÃÃO... (???) (Cá, comigo: Só apavooooorado !)

Passado um tempo, depois da repetição do mesmo diálogo por umas três vezes, ela perguntou: Quer vir deitar aqui com a mamãe?

Não perdi mais tempo, nem para responder ! A distância entre o berço e a cama, naquele momento, era imensurável ! Havia ainda a grade lateral do berço, a qual pulei rapidinho e no escuro mesmo !

Kirie