Manoel de Paula Machado
*1896 -------- +1986



CARTA A MEU PAI

            Papai; Senhor: Constituíam dessas palavras o nosso tratamento para com o senhor e assim continuo aplicando-o, como quando o senhor estava aqui comigo pois, com certeza, apesar da mudança de plano, as pessoas continuam ao redor daqueles que lhe são caros.
            Como uma homenagem neste dia estabelecido como dos pais, apesar de que para quem ama não existem espaços pré-determinados, quero lembrar algumas passagens em nossas vidas, que significaram muito para mim.
            Lembro-me de quando o senhor deixou um emprego onde trabalhou por poucos dias, para não compactuar com o patrão, quando este lhe pediu que emitisse notas com valores acima do real para os funcionários públicos estaduais, visando não perder o freguês, ou seja, o Estado.
Trago isso constantemente na lembrança, quando vejo a corrupção alastrando-se por este Brasil afora, fato que ocupa a mídia no momento.
            Certa vez, seu filho mais velho, na época com 14 ou 15 anos, foi a cavalo até à cidade para fazer compras de gêneros alimentícios. Ao voltar, pensava no valor que levara, quanto gastara e o valor recebido por troco quando percebeu haver recebido a quantia de dois cruzeiros (moeda da época) que, para se ter uma idéia, equivalia a um terço do dia de trabalho de um serviçal comum; Daria também para a compra de umas três entradas de cinema. Éramos muito pobres; vivíamos a calamitosa “era Vargas” que, para os lavradores empregados em fazendas, foi um desastre.
            De imediato tomou novamente o rumo da cidade que já estava bem distante, para assim corrigir o erro junto ao proprietário da “venda”, que o havia atendido.
Lá chegando, dirigiu-se ao balcão e expôs o ocorrido ao dono que, nem esperou melhores explicações, buscando na gaveta o comprovante da venda.
Ao voltar já foi dizendo ao meu irmão: - Menino, não há o que reclamar comigo pois, você é quem levou vantagem; pelo que estou verificando aqui, dei-lhe um troco maior do que o real.
Ao que meu mano respondeu, já com a moeda em mãos: Exato meu senhor; Por isso estou-lhe devolvendo estes dois cruzeiros que, pela minha conta, está errado.
            O comerciante não conseguia mais dizer algo naquele momento, já que até gaguejava de vergonha pelo que dissera anteriormente!
            Feita a devolução e já de saída, foi chamado novamente quando então o homem se desculpou e acrescentou: Diga a seu pai que se ele necessitar de alguma coisa fiado pode me procurar que as portas estarão abertas para ele; Sua honestidade só pode ter vindo de uma família de bem, que sabe educar os filhos.
            Teria mais fatos como estes a serem expostos, entretanto, não posso me estender mais no momento.
   Obrigado meu pai pela rica herança que recebi do senhor pois, essa eu nunca perderei, por não ser constituída de bens materiais!
             Espero que meus filhos sigam os exemplos deixados pelos ancestrais, como eu tenho feito e aconselhado que eles o façam, passando assim de geração a geração, esses inapreciáveis bens!
   Finalizando quero agradecer a Deus por ter confiado ao senhor a minha vida atual neste plano!
            Beijo-lhe a destra como sinal de respeito, como sempre o fiz e com amor e carinho
            subscrevo-me
            Adolpho J. Machado
            14/08/2005


            Domingo-
            dia dos pais



            Formatação: Majô



Branca - Zequinha de Abreu