A carta que não foi expedida.


Caro César,


Desde o inicio da década de 60 que trago em mente esta carta, cujo envio não tive coragem de proceder.
Lembra-se daquele menino que trabalhava numa agência bancária localizada na rua Augusta em São Paulo? Aquele menino educadíssimo; muito quieto era você. E eu entrei no teu destino, como chefe daquela agência.
Nunca me esqueço de que, ao passar pela mesa onde trabalhavas, localizada lá nos fundos da sala, às vezes sorrateiramente, levavas um tremendo susto pois, estavas a "batucar" com os dedos na mesa, de olhos fechados, talvez lembrando algum ritmo...
Nunca estavas ali, na verdade!
Estudavas piano há alguns anos e a música te dominava totalmente! Notava que não te sobrava espaço na mente para mais nada, além da música!
A papelada sob tua responsabilidade se avolumava cada vez mais!
Muitas vezes, durante todo o tempo em que permanecestes lá, te chamei à minha mesa para aconselhamentos quanto ao acúmulo de serviços que se verificava em tua secção.
Infelizmente, muito contra minha vontade, tive que providenciar tua demissão tendo justificado minha atitude ao dizer que teu problema era a música mesmo e que me sentia muito mal ao fazer isso, por não haver mesmo outra solução!
Soube posteriormente que na época, já profissional da música, não tinhas, entretanto rendimento satisfatório.
O tempo foi passando e eu ao acompanhar tua ascensão no campo da música, sempre vibrei de satisfação a cada conquista que amealhavas!
Hoje és aplaudido internacionalmente, com todo o merecimento do menino prodígio que conheci e que apesar de tudo, creio ter contribuído um pouquinho nessa belíssima evolução, sentindo-me então bem melhor agora!

Aceite o meu abraço amigo,


Adolpho J. Machado
(29/01/2004)




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